Autora: Valérie Zenatti
Número de páginas: 122
Editora: Seguinte
Classificação: 4,5/5 (favorito)
Minha Opinião:
Tal é uma adolescente israelense de 17 anos, que vive em Jerusalém com a sua família. Após um atentado de um homem-bomba, em um café perto de sua casa, Tal não consegue esquecer o horror causado pelo ataque, e resolve escrever sobre tudo o que a aflige.
Durante uma aula, ela tem a ideia de escrever uma carta, e colocá-la dentro de uma garrafa, para que seu irmão - que trabalha como enfermeiro militar - a jogue no mar de Gaza.
Esperando conhecer uma palestina da mesma idade para compartilhar os mesmos sentimentos de inconformismo pelo confronto que já dura mais de 6 décadas, Tal cria uma conta de e-mail para se comunicar exclusivamente com a pessoa que encontrar a garrafa. Mas para sua surpresa, ela recebe uma resposta de alguém chamado "Gazaman".
" Ela continua sua ofensiva, sem se dar conta. Ela me faz mal, ela me faz bem, me sinto oscilando sobre um fio: à direita para a luz, à esquerda para a noite escura, opaca, sem esperança. Quando sua mensagem chegou, senti o coração pulsando na cabeça. Para começar, isso é impossível, um coração não pode pulsar na cabeça. Mas por que alguma coisa ecoava no meu crânio, então? (pág.72)Quando solicitei o livro de parceria, nem tinha lido a sinopse. Imaginava que seria sobre uma mensagem na garrafa, mas não tinha ideia que as mensagens seriam trocadas por "inimigos", por assim dizer.
Uma garrafa no mar de Gaza conseguiu me deixar sem palavras. Me desarmou completamente. Não sei exatamente por onde iniciar a resenha, mas devo dizer que a história me emocionou profundamente.
O livro intercala a narração de Tal e Naim - que escrevem sobre o cotidiano em uma espécie de diário - com os e-mails trocados entre eles. A narração em primeira pessoa foi extremamente favorável para explorar a alma dos personagens.
Valérie transformou as poucas páginas de seu romance, em um enredo grandioso, profundo, tocante e revelador. Podemos sentir através de Tal e Naim o medo, e a frustação por estarem de mãos atadas, observando de perto os ataques, sem nenhuma promessa garantida de que um dia haverá paz entre israelenses e palestinos.
A questão histórica sobre os confrontos também é explorada, sem qualquer apelo religioso e sem parecer que estamos em uma sala de aula. Temos a visão de um palestino e uma judia sobre o conflito, e ao ler os relatos de ambos, senti como se eu estivesse no meio de toda essa turbulência causada por anos de guerra. Como seria conviver diariamente com a ameaça de uma explosão? O que sentiria ao presenciar um bombardeio? Qual dos dois lados estaria com a razão? Será que os palestinos se compadecem dos civis que são mortos em mais um ataque bomba, ou comemoram todo e qualquer tipo de morte, até mesmo de inocentes? O desabafo de Naim e Tal conseguem transmitir a exata dimensão do que é viver com esses tipos de questionamento. Podemos ver o sangue manchando as ruas, os sonhos e ideais que se esvaem juntamente com as vítimas, e o pesadelo por nunca se sentir seguro. Acima de tudo, sentimos transbordando em cada desabafo, a esperança por verdadeiros dias de paz.
" Talvez você rasgue esta carta. Talvez você só sinta ódio ao ouvir o nome "Israel" (...) Mas, se esta carta tiver a sorte de encontrar você, se você tiver paciência de lê-la até o fim, se você pensar como eu, que precisamos aprender a nos conhecer, por mil bons motivos, e que queremos construir em meio à paz porque somos jovens, então me responda" (pág. 21)O romance é apenas um pano de fundo. Eles deveriam se odiar, mas conforme conhecem um pouco mais sobre o outro, acabam nutrindo um sentimento de carinho, amizade, e o desejo de poder se encontrar sem a barreira da tela, mesmo que esse encontro seja efetivamente perigoso e arriscado.
Naim guarda um segredo até o final do livro, e apesar de plausível, senti falta de uma "conclusão", por este motivo classifiquei como 4,5.
Com um enredo denso, sentimentos genuínos explorados de modo magistral e personagens palpáveis, Uma garrafa no mar de Gaza conquistou um lugar de destaque na minha lista de favoritos. Ontem mesmo me peguei relendo alguns trechos que marquei, e certamente será um livro que irei reler muitas vezes.
A capa traz os rostos dos atores que protagonizam o filme, adaptado pelo diretor francês Thierry Binisti. Andei lendo algumas críticas sobre o filme, e pude comprovar que o enredo do livro sofreu muitas alterações. Aconselho que a leitura do livro seja feita antes de assistir a adaptação cinematográfica.












